sábado, 26 de fevereiro de 2011

A nova escola que eu freqüento tem janelas maiores

Não existe nada mais frágil e paradoxalmente perigoso do quem um homem bêbado (claro que isso também se aplica as mulheres, mas como isso soa como um provérbio bíblico… às favas com os clichês).
Não ponha a vida de terceiros em risco caso não valorize a sua própria. Não dirija alcoolizado.
Um pouco de caretice às vezes faz bem.
Por falar em caretice: como eu estou careta!  
                                                                                      

Por: Felipe Queidique

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O por quê do conflito Israel-Palesina

Pra começar, dizer que existe conflito porque os árabes recusaram a partilha é falso. O que aconteceu foi que uma ideologia discriminatória pretendia se impor artificialmente numa região já habitada majoritariamente por um grupo étnico diferente há séculos. Para alcançar o objetivo de estabelecer um estado judeu seria necessário tornar os palestinos minoria nessa região, através de imigração maciça de judeus e expulsão dos palestinos, seja através de pressão econômica, social ou militar. Foi por isso que os conflitos começaram, ainda na década de 20. A Inglaterra encomendou estudos para saber as razões desses primeiros distúrbios entre árabes e judeus e não encontrou um conflito sequer digno de nota entre os dois grupos em mais de 4 gerações passadas, concluindo que o descontentamento palestino se devia à frustração por não ter conquistado a independência e o temor pelas consequências da imigração judaica e da ideologia sionista sobre suas vidas.
Em resposta aos protestos palestinos e das organizações árabes a Inglaterra adotou uma posição dúbia, ora tomando medidas que prejudicavam os judeus, ora que prejudicavam os palestinos sem, no entanto, contemplar satisfatoriamente aos dois lados. Propostas de partilha anteriores foram feitas, mas recusadas por ambos os lados. Ben-Gurion deixa bem claro em cartas a seu filho, em discursos à Assembléia Sionista e até mesmo às comissões de estudo inglesas para resolução do problema que ele nunca se contentaria com a partilha da Palestina. Quando a Inglaterra não sabia mais o que fazer com o abacaxi resolveu passá-lo à recém-criada ONU. Foram apresentadas duas propostas a serem submetidas a votação: uma por um estado único e outra por dois estados.
No dia da votação a proposta pelo estado único venceria, mas Oswaldo Aranha, numa atitude no mínimo intrigante, cancelou a votação às 18:30h, alegando que não haveria tempo suficiente para seu término naquele dia. Outra data foi marcada, mas então a França apresentou um pedido para uma terceira data. Enquanto isso rolaram alguns cheques em branco para certos países indecisos, dentre eles o Uruguai. Finalmente, então, a sugestão de 2 estados foi aprovada. Os judeus correspondiam a 30% da populaçao da Palestina e haviam comprado de 6 a 7,5% das terras palestinas. Ben-Gurion a esse respeito disse: "In my heart, there was joy mixed with sadness: joy that the nations at last acknowledged that we are a nation with a state, and sadness that we lost half of the country, Judea and Samaria, and , in addition, that we [would] have [in our state] 400,000 [Palestinian] Arabs." . Ou seja, estava feliz por conseguir um estado, mas triste por este não abarcar toda a Palestina e conter muitos árabes. Logo, para resolver esse “problema”, foi organizado um plano de limpeza étnica e expansão territorial que seria levado a cabo pelas milícias judaicas organizadas, o famigerado “Dalet Plan”, que consistia em ataques a vilas e cidades selecionadas, a expulsão dos habitantes e sua destruição, mesmo FORA DO TERRITÓRIO alocado aos judeus pelo Partition Plan. Em dezembro de 1947 foi feita a primeira operação de limpeza étnica. Por outro lado, os árabes organizaram uma resistência em forma de guerrilha, o ALA (Arab Liberation Army), também em dezembro de 1947. 
No começo de 1948 o Haganah convocou os jovens para o serviço militar e em março declara mobilização geral para o lançamento do Plano Dalet propriamente dito, enquanto ocorrem alguns combates entre o ALA e as milícias judaicas. Ainda em março a Agência Judaica rejeita uma trégua aceita pela ALA feita pelo presidente Truman.
Seguem-se então uma série de operações de limpeza étnica, inclusive fora de território alocado aos judeus pelo Partition Plan, antes da entrada de qualquer exército árabe na Palestina. Nesse interim diversos carregamentos com armas, munição e até mesmo aviões chegavam principalmente da Checoslováquia para reforçar as milícias judaicas. Em maio de 48 já eram cerca de 400.000 os palestinos expulsos de suas casas, quando então outros exércitos árabes entraram na Palestina. Até o final da guerra estes seriam 750.000, pelo menos 70% expulsos pelos judeus e cerca de 5% sob ordem dos árabes, mais de 400 vilas e 11 cidades palestinas foram riscadas do mapa (Tel Aviv repousa sob os escombros de 6 vilas palestinas destruídas em 1948). Os exércitos árabes não estavam em superioridade nem bélica, nem operacional nem em número de combatentes, ao contrário do que diz o mito de que a proporção era de 10 ou 20 combatentes árabes para um judeu. Como citado, os judeus dispunham até mesmo de uma pequena força aérea. 
Com a anexação de West Bank pela Jordânia e de Gaza pelo Egito as pretensões palestinas por um estado próprio não arrefeceram, como vem sendo dito, mas continuaram na forma de movimentos guerrilheiros que, na época, ainda insistiam em lutar por todo o território, isto é, combater Israel, e não só aceitar os territórios ocupados por Jordânia e Egito. A populaçao palestina em Gaza e West Bank não sofria na mão de Jordanianos e Egípcios o que passou a sofrer nas mãos dos israelenses a partir de 1967, por isso não houve nenhuma “intifada” durante o período de 49-67. A guerrilha palestina e os atentados terroristas, porém, continuaram sob a liderança de Arafat formalmente até 1988, quando finalmente foi aceita a existência do estado israelense pela OLP e aí sim a demanda por um estado palestino se dirigiu às áreas de Gaza e Cisjordânia.
 

Por: Guilherme

Odeie todos os impérios não apenas o ianque

Porque você vê o cisco que está no olho do seu irmão e não vê o pedaço de madeira que está no seu próprio olho?
Ninguém melhor que Noan Chomsky para descrever as atrocidades que o governo dos Estados Unidos vem, há décadas e décadas, cometendo em todas as partes do mundo.

Aqui no Brasil, como em toda a América Latina, Ásia, África, Oriente Médio, o governo dos Estados Unidos direta ou indiretamente implantou ditaduras descaradas ou sutis regimes "democráticos" favoráveis aos seus interesses.

Com a desculpa de se opor a esses "imperialistas ianques" muitos oportunistas e gente mal intencionada vêm, paralelamente, cometendo atrocidades e barbaridades iguais ou maiores que seus opositores "imperialistas", a isso, aparentemente, não vemos com a devida ênfase nos escritos do autor citado acima.

O mal deve ser combatido sim, mas não com outro mal. Não com o olho por olho do sionismo, do islamismo da Al quaeda, nem com o cristianismo pagão que campeia todo mundo capitalista.

O "imperialismo ianque" é real, mas não é menos real que as monstruosidades cometidas por seus supostos opositores nos campos de concentração da Sibéria, nas prisões e delegacias de polícia da Síria e do Irã, isso sem falar de Cuba ou outros países que, juntamente com a intelectualidade burguesa, se autodenominaram "socialistas".

Antes da revolução Russa - que desgraçadamente acabou sufocada pelos bolcheviques em 22 - a palavra socialismo era compreendida tanto pelos simpatizantes de Marx como pelos de Kropotkin, não como um regime marcado pela coerção, mas pelo seu contrário, como bem explica Rexroot na abertura de seu livro mais conhecido.

"Antes de 1918 a palavra COMUNISMO não significava Esquerda da Social Democracia do tipo representado pelos bolcheviques russos, uma forma radical, revolucionária, de Estado socialista. Bem pelo contrário, a palavra comunismo era utilizada por aqueles que desejavam de uma forma ou de outra abolir o Estado, acreditando que o socialismo não era uma questão de tomada do poder, mas de anulação do poder, retornando a sociedade a uma comunidade orgânica de relações humanas não-coercitivas. Eles acreditavam que essa era a expressão natural da sociedade, e que o Estado era apenas um elemento mórbido dentro do corpo normal da economia, o trabalho local da família humana, agrupada em associações voluntárias. Até mesmo a própria palavra ?socialismo? foi originalmente aplicada significando as livres comunidades comunistas tão comuns na América no século XIX". 

Por: Railton do Centro de Mídia Independente

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Democracia – Por Isabélica

Odeio democracia (...) por motivos óbvios. A democracia que tantos defendem não existe e isso não é segredo de estado.


É uma palavra, como pragmaticamente todas as da Língua Portuguesa, derivada do Latim e significa literalmente: Governo do Povo (demo=povo/cracia=governo). Então se é governo do povo tem que ser exercido pelo povo e não só em ano eleitoral.

Nós escolhemos um representante e esse toma todas as decisões em nosso lugar sem nos consultar, aliás, obedecendo quase sempre a seus fisiologismos mais esquizóides. Em geral os representantes do povo têm representado mais às pessoas jurídicas do que às pessoas físicas, investido mais em interesses econômicos em detrimento do bem estar social.

Todo o poder que é emanado do povo deveria voltar em forma de igualdade e justiça, mas todos nós sabemos que em um regime capitalista e com esses governos neoliberais (a besta que alimenta a besta) isso nunca acontece. Na melhor das hipóteses um representante bem intencionado, ou semi-bem-intencionado, driblando, corporações, parasitando outras nações de forma perfeitamente legal (não legal “cool”, mas no sentido jurídico da palavra), preenchendo as lacunas vazias da constituição com o que dá pra ser chamado de “bom senso” operará algumas parcas mudanças. Mas depois de um tempo a alegria volta a ser o mesmo desencanto de sempre, pois em uma máquina disfuncional como o “sistema” (agora me baixou o coronel Nascimento) quando se consegue suprir determinado setor, consegue-se mais que isso, faz-se outro pifar.

Para que essa palavra possa ser usada em uma frase séria muita coisa terá que ser reformulada. Pra começar é preciso que as pessoas comecem a se inteirar mais do sistema político vigente (e não só ler o que está escrito no dicionário), pois democracia representativa não é democracia e sim tapeação.

Certo! Política é uma coisa muito chata, um assunto maçante pra caralho e não chega a ter metade da relevância que o resultado de quem fica e quem sai da casa do BBB, mas é como certa vez um desses malucos mais inteligentes que o resto do mundo disse: quem não gosta de política acaba governado por quem gosta em demasia.

Estou hipoglicêmica e preciso ver a luz do sol. Minha bunda está ficando quadrada e minha cara está ficando com aspecto de um monitor. Meus quase três graus de miopia e meu buço não são nada atraentes e eu não sou feliz.

Há uma solução para todos os males, basta escolher o calibre.

Beijo, pros mal-amados e pras solteiras mal-comidas.

Sobre Isabélica: Trancou a faculdade de pedagogia, se trancou no quarto e no interior do próprio ódio. Ocasionalmente resolve colaborar com o blog para provar que falta de sexo não limita a capacidade mental de ninguém.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Dos caras burros da minha sala eu sou o mais inteligente.

“Certo. Dessa vez é pra valer esse é o último cigarro que eu acendo na vida!” o escritor diz a si mesmo enquanto prepara-se para escrever mais um de seus contos que muito provavelmente nunca será terminado.
Quem nunca peidou que chame a polícia
Meu nome é: não se importe com minha identidade. Mas para você com quem pretendo ter mais afinidade pode ser: narrador anônimo!
                O fato é que essa narrativa começa de um modo muito, muito estranho e eu provavelmente estaria ruborizado e desconcertado caso estivesse cara a cara com você prezado leitor e... Droga! Me perdi. Então vamos direto aos fatos.
                                Quando você é uma pessoa que pensa diferente da maioria e mora no olho do cú do mundo suas chances de enlouquecer caso não comece a convergir com o resto do rebanho é de mais ou menos 97,8 % variando conforme a extensão territorial, a densidade populacional, o PIB per capita e o IDH da cidade. Quando isso envolve picuinhas amorosas e familiares as chances de se manter sanidade menta são praticamente nulas.
                Eis a receita do antídoto para esgotamento emocional decorrente de inadequação social:
Uma garrafa de aguardente Pirassununga 51.
Sete latas de cerveja (qualquer uma menos Nova Schin, pois essa costuma causar diarréia na maioria das pessoas, senão em todas).
 Dois cigarros de maconha big size mesclados com duas pedras de crack esfareladas.
Um saleiro cheio de cocaína.
Três comprimidos de metanfetamina.
Três cápsulas de mescalina.
Uma folha de LSD que pode te deixar mais louco do que o Batman.
Benflodine que é um remédio qualquer pra infecção renal que tomado em grandes quantidades dá barato.
Um frasco de xarope pela metade de éter e uma estopa.
Algumas pílulas de Viagra.
Propensão genética à insanidade.
Uma lata de Coca-cola, um copo de café e uma dose de catuaba pra alimentar a ilusão de que você não é tão doente quanto na verdade é.
Misture tudo e depois de pedir carona pra qualquer lugar fora da cidade e ninguém ter coragem ou disposição para ajudá-lo pegue a BR-153 a pé se dirigindo à cidade mais próxima com pensamentos esquizofrênicos do tipo em que caipiras com cutelos, forcados, tochas e estacas de madeira prontos a acabar com qualquer vestígio de sua existência estão em seu encalço como se fosse o monstro de Frankstein.
Você começa a correr insano e amaldiçoa a deus por ele ser tão cruel e ter fodido com sua vida mesmo sabendo que a culpa não tem como ser dele, pois ele não existe. Você corre mais ainda, até seus pulmões doerem e você começa a sentir sua respiração arder como fogo dentro deles. Embora você não tenha a intenção de parar de correr, você tem a certeza fria de que no dia seguinte seus membros não responderão ao comando do seu cérebro e sua aparência será a de uma múmia atropelada por um caminhão pipa. Seu sangue circula cada vez mais rápido nas suas veias com aquela quantidade de drogas como veneno em seu passeio intravenoso. O resto da história é meio óbvio.
...
Embora eu soubesse que o que saía dos meus olhos era algo incolor, salgado e inodoro produzido por minhas glândulas lacrimais, meus olhos não podiam deixar de enxergar algo que possuía a mesma textura e odor de sangue. Eu estava sangrando pelos olhos ou chorando sangue, não importa. Aquilo só podia ser um milagre de satanás mesmo.
A lua estava cheia de forma que era uma noite extremamente clara o que não me deixava mais tranqüilo, pois dessa forma eu podia vê-los e eles podiam ver a mim, também. Os índios antropófagos. Grelhando carne humana e bebendo cerveja na beira da estrada. Eu não podia me dar ao luxo de parar pra descansar ou tropeçar e cair senão eu faria parte do banquete.
Voltar? Não! Deu muito trabalho deixar os caipiras assassinos pra trás. O jeito era continuar correndo até a cidade mais próxima que ficava a 50 km da cidade que eu havia saído. Você deve estar se perguntando: como alguém chapado poderia percorrer tal distância a pé em uma noite? É incrível a natureza das façanhas físicas a que o medo irracional e o delírio podem forçar uma pessoa.
O sangue nos meus olhos estava me cegando e então o que não podia ter acontecido finalmente aconteceu: eu cai e na queda esfolei as mãos e torci o tornozelo esquerdo. Aproveitei pra limpar o sangue dos olhos e quando olhei novamente em direção a beira da estrada os índios haviam sumido, devem ter sentido nojo da minha carne envenenada por drogas legais, ilegais, alimentos industrializados e hipocrisia urbana, acho.
O que voltou a me chamar a atenção e me deixou sobressaltado foram os olhos dela. Ela olhava em minha direção com seus olhos felinos que enxergavam na semi-escuridão daquela noite detalhes que escapavam a minha visão com quase cinco graus de miopia. A onça pintada estava ali me observando e farejando o medo exalado através de minhas glândulas sudoríparas, mas não quis me atacar, pois os bebês estavam mamando. Um casal de bebês humanos de aproximadamente uns dezoito meses mamava na onça e nesse momento eu me lembrei de Rômulo e Remo que foram criados por uma loba, mas aquilo não era a mesma coisa.
Eu estava hipnotizado e quase não consegui parar de olhar, não teria conseguido se não tivesse minha atenção chamada pela voz fanhosa e grave de barítono ás minhas costas. Quando me virei o dono da voz me fitava com olhos tristes de tamanduá bandeira e ele disse mais uma vez “corra!” e eu me lembrei dos caipiras com sede de sangue junkie e voltei a correr deixando para trás a onça, as crianças e o tamanduá falante.
...
Você corre mais ainda, até a dor em seu calcanhar contundido ordenar “pare!”. Você não para, pois se lembra de que há uma turba ensandecida gritando seu nome e lhe prometendo muita dor física acompanhada de toda sorte de palavrões e ofensas dirigidas a sua pessoa. Você volta a chorar sangue, mas continua correndo às cegas. Ou é isso ou ser linchado pelos filhos de deus portadores das verdades religiosas mais risíveis. Você vê uma placa onde pode-se ler a seguinte mensagem: Hotel à 600 Metros! E você pensa que está salvo, mas nos próximas horas você terá perdido a consciência e nem se lembrará de como ou quando chegou à cidade.   
Bem-vindo à Lugar Nenhum! Eram as palavras na placa e logo embaixo disso havia uma pichação como os dizeres: onde porra nenhuma muda e nada de relevante acontece!
Era de manhã e eu estava descalço e sem camiseta. Não conseguia simplesmente me lembrar de onde passara o restante da noite e tentar fazê-lo fazia minha cabeça doer pra caralho, então eu desisti. O jeito era explorar o lugar e dar um jeito de voltar, mas eu não lembrava de onde tinha vindo, então o jeito era achar água, uma sombra e algo pra comer.
...
                Eu comecei a andar e percebi que minha aparência devia estar mesmo horrível, pois as pessoas não desgrudavam por nada os olhos de mim. Olhavam pra mim como se estivessem diante do demônio usando fones de ouvido.
Eu estava fenecendo ao olhar de um deus caolho chamado sol, uma estrela de sétima grandeza constituída de gazes incandescentes que a despeito de prover calor a quase toda a vida no planeta estava dando cabo da minha. 40° de pura cólera divina em cima de mim por mais alguns minutos somando a exaustão, a falta de líquido no corpo e os neurônios evaporados e eu morro, pensei.
                 Perto de um ponto de ônibus havia um mendigo com pinta de profeta pirado. Ele ostentava um cartaz com os seguintes dizeres:
Arrependei-vos pecadores! Eis que é chegada a hora final!
                Nada do que ele vociferava entre uma cusparada e outra fazia o menor sentido, exceto é claro, pra ele e pro dono da voz na sua cabeça. Antes de me ver ele sentiu a minha presença, pois dirigiu a palavra a mim antes mesmo de ter estabelecido qualquer contato visual.
                _Para trás de mim Satanás! Tu portador da mácula do pacto negro, tuas mãos impuras não podem alcançar de modo algum a traquéia desse servo!
Como se não bastasse ter largado o cartaz ali no chão, na fuga ele ainda acabou esquecendo todo o bom senso e a coerência. Saiu correndo olhando pra trás, me amaldiçoando e se benzendo. O carro que o acertou devia estar a uns oitenta por hora, o que foi o bastante pra explodir alguns órgãos externos e ainda perfurar alguma parte do intestino. Na poça de sangue que se formou dava pra enxergar vestígios de matéria fecal boiando silenciosa e disforme.
Todos me olhavam como se eu tivesse acabado de sodomizar uma criança de colo. Todos me olhavam com ódio e me matavam de todas as maneiras possíveis em suas mentes. Eu não tive culpa, mas era a pessoa mais fora dos padrões no raio de quilômetros e conseqüentemente a pessoa perfeita a se culpar.
Foi preciso mais de dez policiais pra impedir meu linchamento. Chegando à delegacia respirei aliviado sem imaginar que dali pra frente minha situação só iria piorar. O delegado me fitou inexpressivo.
_Então o filho pródigo a casa tornou, heim?
_Do que o senhor está falando? Eu nunca estive aqui antes!
_Sempre engraçadinho, né, moleque? Perde os dentes, mas não perde a piada!

Um dos policiais, o mais alto, com bigode e pinta de ator pornô retirou os óculos Ray Ban entregou a outro policial que estava do seu lado, caminhou em minha direção e disparou, rápido e eficaz como um projétil de 9mm, um soco de direita que me acertou bem entre os olhos esmigalhando minha cartilagem nasal com um estalo que ecoou pelo interior da minha caixa craniana pelos anos seguintes e até hoje ainda me assombra em pesadelos vívidos como só as lembranças mais traumáticas podem ser. Eu caí no chão inconsciente.
...
Você acorda se afogando no próprio sangue e se lembrando vagamente de ter recebido um forte golpe que lhe quebrou o nariz e tenta articular uma pergunta, mas tudo o que consegue é emitir um grunhido semi-animalesco e desprovido de qualquer expressão coerente. Você se pergunta se aquilo tudo não passa de sonho e constata em desespero que é tudo real, a dor, os agressores e o sangue. Tudo real, menos a situação.
Você tem que falar, tem que dar um jeito de explicar o quanto é inocente, mas eles não querem ouvir. Eles tem um nome (algo como, Calado!) e uma ficha criminal pra você. É você na foto, a impressão digital é sua e todos os demais dados batem com os seus. Então quer dizer que você é culpado do que quer que esteja sendo acusado mesmo que seja incapaz de se lembrar.
Agora você está muito enrascado e ao tentar explicar é tão agredido, leva tantos chutes de coturno e socos que desmaia e acorda dentro de uma poça de vômito e sangue pedindo a morte e tentando se lembrar da mulher que o amamentou e o carregou no útero por nove meses, mas não consegue. Você está preso. Você está morto. E por mais inverossímil que pareça tudo aquilo, você sabe que é real.
...
Você escuta e tenta assimilar corretamente tudo o que o delegado diz, apesar da dor latejante na cabeça e da dor extrema tatuada nos hematomas e no interior do que sobrou de seus 1,78 m de humanóide imprestável e desprezível. Você se pergunta se perdeu temporária ou permanentemente o movimento do polegar direito e que diabos de líquido será aquele que está sentindo escorrer de algum lugar no interior da parte de trás de sua caixa craniana.
...atentado violento ao pudor, tentativa de homicídio, assalto a mão armada, porte e tráfico de drogas pesadas...
Você só ouve a metade, entende metade do que ouviu e se esquece da metade que conseguiu entender imediatamente após ter ouvido. Você quer falar, mas sabe que se tentar pode morrer de tanto apanhar, então conclui brilhantemente com o resto de sua massa cefálica que não virou patê que é melhor ficar calado.
Eles te encarceram sem o direito à defesa junto com um negro de 2,13 m e 180 kg de pura perversidade que promete te enrabar toda santa hora de todo santo dia de todo o tempo que você for passar ali.        
Depois de alguns meses eu parei de contar os meses e simplesmente me submeti à rotina dali que consistia em ser estuprado, espancado, torturado no pau-de-arara pra confessar crimes que não havia cometido entre outras coisas.
...
Uma noite você dorme e acorda em uma banheira cheia de gelo com algo faltando. Sente uma dor no flanco esquerdo e ao olhar para a sutura mal feita no ferimento que ainda deixa escapar certa quantidade de sangue percebe que um de seus rins foi levado. Você reclama com a direção da casa carcerária e o diretor te responde com um sorriso de indisfarçado cinismo no rosto que aquilo é pra pagar a estadia, afinal, não seria justo que os internos simplesmente fossem alimentados pelos trabalhadores honestos que pagam seus impostos em dia e ficasse por isso mesmo.
Outro dia você sofre lobotomia trans-orbital e começam a administrar drogas da obediência em você. Conduzem experiências científicas e te tornam portador de um agente viral experimental causador de distúrbios nervosos para uso militar. Quando você surta em uma noite abafada de sexta-feira pedindo entre gritos desesperados para as gárgulas nas paredes se calarem e deixarem você dormir, eles te acalmam com choques elétricos e a boa e velha violência física.
...
Depois de mais tempo ali do que me imaginei capaz de agüentar fui solto. Mas uma vez que checavam meus antecedentes criminais e constatavam que eu acabara de sair da prisão, nenhum empregador queria me empregar. Sem emprego e sem conhecer ninguém que pudesse me ajudar me voltei para o crime.
...
Você tem sua vida e suas lembranças arrancadas de você e caso tente se queixar a alguma autoridade receberá porrada e choques elétricos. Então o que você faz? Vinga-se! Como? Com um pouco de determinação e as quantidades certas de nitrato de potássio, enxofre e pólvora!
Você detona uma bamba na agência de correios local provocando a morte de duas pessoas e antes de levar vários tiros e ser hospitalizado em estado grave, tenta outra na câmara dos deputados. Assim que tiver se recuperado dos tiros, você será julgado e condenado. Mais um punhado de anos encarcerado pagando pelos crimes da sociedade que te transformou em um monstro homicida. E o inferno já não é mais só um lugar na sua mente. 
...
“E agora o Gran Finale!” pensa extasiado o escritor que acaba pela primeira vez desde que se entende por escritor uma narrativa a contento, mas antes, acende mais um cigarro. “Ah, merda! No final do ano passado eu prometi a mim mesmo diante do túmulo de minha falecida mãe que pararia de fumar. Se você soubesse o gosto que a nicotina contida na fumaça de um cigarro tem pra um fumante de longa data...”
FIM
P.S. Para a conclusão dessa singela narrativa foram necessários nada menos que dois maços de Luke Strike.
P.P.S. Para quem não sabe, P.S. significa Post-scriptum (significa literalmente "escrito depois" ou "pós-escrito" em latim).
P.P.P.S. E para quem não sabe, P.P.S. significa que eu sou um pseudo-intelectual afetado e egocêntrico, que gosta tanto das próprias piadas que as repete à exaustão.


Por: Felipe Queidique

 






Resenha crítica dos filmes Tropa de Elite e Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro

            A primeira impressão que tive do filme Tropa de Elite de José Padilha quando assisti a uma cópia pirata emprestada por um amigo meu foi a de estar assistindo a uma película extremamente preconceituosa ao atribuir aos usuários de drogas a culpa pela expansão do tráfico de drogas e da violência urbana e extremamente maniqueísta ao mostrar os mocinhos (o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do RJ) combatendo os vilões (os traficantes de drogas que tocam o terror nas favelas).
No decorrer das quase duas horas de filme senti uma necessidade do roteiro de tentar legitimar as práticas de tortura dirigidas à “bandidagem” e a população em geral da favela. Como se o filme tentasse dar voz à classe média carioca que tem se visto refém da violência urbana que por sua vez é conseqüência direta do tráfico de drogas. Bom, essa foi a impressão que eu tive ao assistir ao filme (boa parte da crítica também partilhou da mesma opinião), mas segundo seu diretor, José Padilha, não foi exatamente essa a mensagem que o roteiro pretendia transmitir.
Narrado em primeira pessoa pelo protagonista capitão Roberto Nascimento o filme, de fato, funcionou mais como propaganda pró-violência policial do que como denúncia a tal violência, mesmo que não tenha sido essa a intenção de seus idealizadores e realizadores.
 Parte da imprensa classificou o filme como fascista e reacionário, por estar assustada com a reação entusiasmada de uma boa parcela da platéia que aprovava e até aplaudia as ações violentas praticadas pelos “mocinhos”.  A essas investidas “mordazes” por parte da imprensa o diretor respondia que apenas tentou suscitar o debate sobre a questão da violência a partir do ponto de vista de policiais e. Ingenuidade da parte dele achar que conseguiria isso com “aquele” filme e com “esse” público.
O filme a princípio derrapa ao mostrar uma suposta Tropa de policiais incorruptíveis e vai progressivamente dando suporte a um coro raivoso de segregação sócio-racial, legitimando assim o uso da violência na repressão ao crime. As favelas são resumidas ao tráfico (como se todo favelado fosse traficante, fosse bandido), assim se assume o discurso da repressão violenta às comunidades pobres como “a guerra” contra o tráfico.
Responsabilizar os consumidores de drogas pelo “financiamento” do crime também é uma idéia forçada pelo filme, onde são mostrados universitários de classe média consumindo drogas leves e participando de passeatas em prol da paz. Até onde sei as passeatas pela paz não atacam de fato os reais motivos da violência e nem a responsabilidade pelo tráfico de drogas pode ser inteiramente atribuído à “ala consumidora” por assim dizer.
Não é abordado em momento algum do filme questões como os graves problemas sociais do capitalismo (fome, desemprego) e os governos e suas políticas, que são os verdadeiros responsáveis pela violência urbana nunca são postos no banco dos réus.
Questões como à necessidade de legalização das drogas, para atrofiar o narcotráfico, acabando com seus lucros e as diversas outras “instituições” criminosas derivadas do tráfico de entorpecentes também não são abordadas. Segundo o filme os consumidores e só os consumidores são apontados como responsáveis pela violência enquanto o governo e a burguesia passam impunemente pelos “filtros da ficção”. 
Em suma, o Tropa de Elite original foi rodado em ritmo de cinema hollywoodiano de ação que só serviu para corroborar antigos preconceitos, pois mostra bandidos como bandidos (o fator “crueldade humana” não deve ser em momento algum ignorado, mas ignorar que os bandidos antes de se bandearem para o lado “escuro” da lei passaram pelo processo de marginalização social também é sacanagem) e bandidos fardados como heróis, pois a medida que mata, tortura e trata com truculência criminosos, moradores da favela e usuários de drogas, o protagonista, capitão Nascimento é alçado ao status de herói nacional, por sentar o ferro na bandidagem geral, sem dó. E ainda tem a onipresente narração em off de Nascimento contribuiu para a “humanização” do personagem.
Como se o estado (ou nesse caso a sua “mão” opressora que é a polícia) tenha o direito de dispensar ao indivíduo o mesmo tratamento dispensado por esse a outrem e pelo qual poderá responder perante a lei (qualquer similaridade com o código de Hamurabi pode não ser mera coincidência). Como se o papel do estado fosse apenas o de vigiar e punir e não também o de amparar e suprir as necessidades de cada um.  
   É de se estranhar, e muito que o José Padilha que dirigiu Tropa de Elite seja o mesmo que dirigiu Ônibus 174, no qual tenta reconstituir o violento episódio em que Sandro Barbosa do Nascimento (aliás, um dos sobreviventes da célebre Chacina da Candelária) realiza o mal-sucedido seqüestro de um ônibus que culmina em tragédia ou do documentário Garapa, resultado de 45 horas de filmagens que acompanham o cotidiano de três famílias no estado do Ceará em estado de extrema insegurança alimentar.
De fato Tropa de Elite foi o maior escorregão na carreira do cineasta justamente por supostamente (digo, supostamente por quê ao argumentar que Nascimento é um espelho perverso do cidadão carioca cheio de medo e revoltado com a insegurança, um anti-herói e não um exemplo a ser seguido, Padilha quase soa convincente, quase) encontrar-se envolto em uma atmosfera de interesses políticos e oportunismo artístico-comercial, afinal, por que não angariar incentivos fiscais idealizando um filme que pode servir para a população civil ignorante engolir as novas políticas de segurança pública que seriam adotadas pelos governos federal e estaduais, sem chiar? Não estou, no entanto acusando o cineasta de oportunista e sim fazendo a todos uma ode à reflexão.
O PAC (ou Programa de Aceleração do Crescimento) da Segurança a partir daí (meados de 2007) é baseado no aumento da repressão policial e em outras medidas fascistas tais quais: criminalização da pobreza e dos movimentos sociais. Foi declarada a “guerra” às populações carentes e o filme de Padilha veio bem a calhar como “propaganda governamental de guerra”, mesmo que involuntariamente.
Sob o nobre pretexto de combater o narcotráfico, mortes, prisões arbitrárias, torturas e abordagens vexatórias se tornaram rotina no cotidiano de milhões de trabalhadores e de jovens negros. A partir daí a polícia passa a usar com mais freqüência e intensidade equipamento militar (destaque para o “Caveirão”, o simpático blindado que se tornou símbolo do BOPE).
Isso é o que pode ser convenientemente chamado de “doutrina da guerra preventiva” procedimento que o governo Lula (o então presidente e agora padrinho político da atual Dilma Roussef) aprendeu com o de G. W. Bush, afinal quem mata primeiro sempre tem a chance de perguntar depois, certo?
 Daí o resto virou piada de humor negro. Em festas à fantasia pessoas iam orgulhosamente trajadas como policiais do BOPE e eram freqüentes as brincadeiras em que camaradas se estapeavam mutuamente repetindo à todos pulmões a frase que fora celebrizada por Nascimento: pede pra sair! Até as crianças volta e meia eram vistas repetindo o mesmo comportamento (na época minha mãe tinha uma escola destinada à pré-alfabetização e eu cansei de ver isso acontecer) e em todos os cantos o gado bradava em alta voz: “caveira, caveira!”. Carta branca para os Criminosos Fardados. Até o comando tático local passou a agir mais violentamente, pois tinha o aval da população civil preocupada com a criminalidade (pelo menos a que era perpetrada pela ralé violenta e subnutrida).  
Não tenho absoluta certeza, mas penso que Padilha não tinha noção de que havia, ao tentar fomentar discussões pertinentes a temas como violência, tráfico, corrupção policial e consumo (ou financiamento) de drogas, acabaria criando um monstro. Ao invés de fragilizar, sensibilizar e convidar à reflexão, uma sociedade já mortificada e saturada da violência urbana acabou levando a mesma a aprovar e até a incentivar a barbárie.
     A nova face do Caveira

(se alguém ao final dessa postagem, se é que isso seja possível, não entender o sentido desse trocadilho peço encarecidamente que vá se f***r!)
Três anos depois da realização do primeiro longa é anunciado em ano de copa e de eleição e depois de ser adiado algumas vezes estréia em uma 6ª feira, 08, em mais de 650 salas de cinema Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro.
            A história se passa quinze anos depois de onde termina seu predecessor com o antes capitão e agora coronel Nascimento, comandando da sede do Batalhão via rádio a invasão ao presídio de segurança máxima Bangu I, onde depois que armas são introduzidas na ala de uma das três facções rivais lá “residentes”, por agentes carcerários corruptos tem início um massacre na outra ala, promovido pela facção chefiada por Beirada (seu Jorge, que através de sua pequena participação mais uma vez nos põe diante da seguinte dúvida: afinal de contas, no que é mesmo que ele é melhor, atuar ou cantar?). O BOPE entra no meio, com o capitão André Mathias (interpretado de maneira opaca pelo ocasional ator André Ramiro, que começa o primeiro filme ainda como “aspira”) capitaneando o pelotão.
            É então quem entra em cena o professor de história e ativista dos direitos humanos Diogo Fraga (qualquer semelhança com o deputado Marcelo Freixo, o parlamentar do PSOL que conseguiu a instauração, na ALERJ, da “CPI das milícias” pode não ser mera coincidência) que segundo Nascimento em sua narração em off é o tipo de pessoa que vagabundo chama quando faz “merda”. Temendo um episódio análogo ao Carandiru e uma repercussão negativa na imprensa, o governador resolve atender a exigência do traficante e manda o ativista de direitos humanos, a fim de tentar dialogar com os presos.
            A princípio Fraga consegue através de seus recursos retóricos e da confiança que o traficante Beirada aparentemente deposita nele acalmar os ânimos e os reféns feitos até então (os próprios agentes da polícia penal) acabam sendo libertados, mas André que não conseguiria sair dali satisfeito sem ter mandado pelo menos um vagabundo pra vala se precipita e junto com seu pelotão senta a bala nos presos insurgentes. Beirada faz Fraga de refém e o capitão Mathias, obedecendo rigorosamente o manual do BOPE (matar o vagabundo para proteger o refém), mas desobedecendo a uma ordem direta do coronel Nascimento arregaça o crânio de Beirada na bala o que acaba rendendo muita dor de cabeça para ele, para o governador e conseqüentemente para todo o BOPE.
            O resultado de tudo isso é que Fraga usando uma camiseta onde pode-se ler (HUMAN RIGHT AID) manchada de sangue vira manchete no mundo inteiro.
Revoltado com a atitude perversa e covarde do BOPE esculacha o governador, o coronel Nascimento, o capitão Mathias e o BOPE.
            Responsabilizado pelo incidente Nascimento perde o comando, mas graças aos auspiciosos elogios do inescrupuloso apresentador de TV (qualquer similaridade com o deputado e apresentador de telejornais de viés sensacionalista, Wagner Montes pode não ser mera coincidência) Fortunato e da própria população de classe média que já está saturada de toda a violência que eles acreditam inocentemente (ou perversamente, pra quem não consegue ficar alheio à guerra de classes que é um fato) ser promovida unicamente pelos criminosos violentos vindos das classes subalternas ele longe de sair prejudicado acaba sendo promovido a subsecretário de Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro, o que ele chama de “cair pra cima”.
            Quem acaba sendo crucificado na história (pra agradar a esquerda) é André Mathias que é expulso do BOPE e não contente com sua condição humilhante resolve chamar a imprensa para reclamar do governador por ter sido responsabilizado pelas mortes em Bangu I, pois segundo ele um governo que só pensa em politicagem e em suprir seus fisiologismos não tem o direito de agir tão arbitrariamente. Isso deixa o governador furioso e Mathias além de continuar no batalhão dos corruptos pega trinta dias de cadeia pela “travessura”.
            Em uma conversa francamente hostil entre pupilo e mestre, Mathias alega, “com todo o respeito” que independente dos esforços de Nascimento a única coisa que será mudada na Secretaria de Segurança Pública será ele mesmo. Nascimento é considerado um fascista pela ex-esposa (que inclusive está casada com o tal Fraga), causa medo ao filho e é considerado um traidor por Mathias, ao invés de se abater ele exorciza seus demônios metendo a cara no trabalho.        
            Agora Nascimento combate o crime em uma esfera bem maior, abrangendo vasta extensão, recursos materiais e técnicos, e acesso a uma rede de corrupção que nem seus 21 anos de policial o fariam supor.
            A maior parte do filme se passa em um ambiente de gabinetes enquanto Nascimento usando seu prestígio aumenta e equipa o BOPE, transformando o batalhão em uma “máquina de guerra”. O BOPE a partir daí passa a contar com trezentos e noventa policiais e dezesseis equipes táticas e as operações que outrora eram efetuadas com apenas oito viaturas agora contavam com carros blindados e helicópteros.
            A repressão acaba com o domínio do tráfico nos morros, mas abre espaço para outro tipo de crime bem mais organizado. E é aí que aparecem as milícias que, na ausência dos grandes traficantes, acabam dominando as comunidades, através de métodos típicos de mafiosos, e protegidos por alguns políticos com o próprio governador à frente.
            É então que Nascimento percebe que no “vácuo de poder” deixado pela derrota dos narcotraficantes que nascem essas milícias, esses poderes paralelos, pois o sistema, como ele conclui amargamente, é conivente e tira proveito até da ação predatória dessas milícias.
            O BOPE é uma tropa de elite treinada para matar. Ao fazer o seu trabalho, ele perfaz um duplo papel, o de herói e o de vilão. Ao sair de cena, esta é ocupada por bandidos duplamente piores que os meliantes, porque se escondem atrás da insígnia da lei para achacar bandidos e a população civil. Nascimento a partir de então começa a combater o sistema do qual, querendo ou não, faz parte, tentando destruí-lo por dentro. Tarefa inglória, quase inexeqüível, não fosse a bem vinda ajuda de seu antigo rival o agora deputado estadual, Diogo Fraga.  No fim, a guerra de Nascimento contra o crime desloca-se da polícia para a política numa troca de proporções, onde reside uma diferença crucial para todos os envolvidos.
            Aqui a farsa do “incorruptível” BOPE ainda é forçosamente mantida enquanto do lado de cá do espelho esse é tão corrupto quanto a PM. No próprio livro que deu origem ao filme (Elite da Tropa, escrito a três mãos pelo antropólogo e ex-secretário de Segurança Pública do Rio, Luiz Eduardo Soares, André Batista e o ex-capitão do BOPE, Rodrigo Pimentel em quem foi inspirado o personagem interpretado por Wagner Moura) se fala de um comandante do BOPE que tenta ficar com parte do dinheiro recuperado de um assalto a banco.

            A principal diferença desse novo Tropa em relação ao original é a ampliação do tema da segurança pública e da corrupção. Ao invés de radiografar a violência unilateralmente do pondo de vista do meganha-assassino-herói nascimento que acha que ao matar está fazendo um grandessíssimo favor a sociedade, expõe de modo mais acurado de onde nasce essa violência (fecha na esplanada dos ministérios Queixada, close ali Imperador!) através da percepção amadurecida do mesmo Nascimento que agora que descobriu que a Secretaria de Segurança é o berço da insegurança e que em um estado que além de não gerar lucro algum e só cobrar impostos exorbitantes, ainda se dá ao luxo de lucrar com a miséria e a ignorância das comunidades carentes as transformando em verdadeiros “currais eleitorais”.  
            "Acredito num cinema que interfere na realidade e provoca uma reação no público" comentou certa vez Padilha ao ser questionado por quê do auto teor político de seu último longa ficcional. E eu acredito que esse filme (com o respaldo das afirmações confiantes de seu realizador e quem distribuiu sozinho o filme) tem o poder de provocar tais mudanças. Destaque para a irônica “nota de esclarecimento” que diz: APESAR DE POSSÍVEIS COINCIDÊNCIAS COM A REALIDADE, ESSE FILME É UMA OBRA DE FICÇÃO.
Coronhada na cartilagem nasal do “sistema” mesmo. Parabéns coronel Nascimento. Parabéns José Padilha.

Duas curiosidades:
           
            1) em uma cena em que Diogo Fraga dá uma palestra explicando que numa projeção a população carcerária brasileira chegaria a 510 milhões, em 2081, enquanto a população geral chegaria a 570 milhos, ou seja: 90% da população estaria presa, faz ponta na platéia o deputado Marcelo Freixo, ouvindo o personagem inspirado nele próprio, numa espécie de metalinguagem.
            2) outro que dá as caras é do próprio Rodrigo Pimentel (ex-oficial do Batalhão de Operações Policiais Especiais – BOPE, um dos criadores da história e quem inspirou o personagem do capitão Nascimento), que aparece como um dos clientes do restaurante que aplaude o Nascimento quando ele entra.
P.S. Recomendo a todos que assistam ao documentário Ônibus 174, que reconstitui a trajetória tenebrosa de Sandro Barbosa Nascimento até o dia em que ele seqüestrou o ônibus e acabou morrendo asfixiado pela polícia.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Desestatizar o lixo:

Walter Block, em seu clássico "Defendendo o Indefensável", faz uma distinção necessária entre lixo público e lixo privado. Para ele (e espero que para qualquer pessoa sensata), o problema do lixo só existe em ambientes controlados pelo Estado. O lixo que alguém deixa em cima da mesa de um restaurante, por exemplo, não é considerado um problema; a mesma coisa vale para o lixo deixado em um estádio de futebol; e até mesmo para o lixo de um hospital. Apesar de cada ambiente ter um "nível de lixo" tolerável pelos consumidores de seus produtos, eles não têm o problema do lixo que as vias públicas, parques e praias enfrentam devido à impossibilidade de entender o quanto de lixo as pessoas demandam. E isso acontece porque não existe um sistema de transmissão de informações via o mercado, ou seja, um sistema de preços.

Quando há um sistema de preços para informar as preferências das pessoas, esse problema não acontece. Atualmente, é uma tarefa árdua encontrar algum grande evento que não tem entre seus organizadores uma empresa de gestão , para garantir que os melhores processos para reduzir o impacto ambiental estejam sendo aplicados.

Pouco importa se o resultado final é um maior impacto ambiental (isso pode acontecer devido ao custo da fabricação e utilização de tecnologias mais "limpas"); o que importa é que os consumidores dessas festas demandam esse comportamento dos organizadores - como é revelado por pesquisas de mercado - e como empresários bem sucedidos são os que atendem os consumidores em seus menores caprichos, esse comportamento é recorrente nesse meio.

Interessante ainda é ver na prática as empresas contratando certificadores privadas (com fins lucrativos) para atestar que os eventos são "sustentáveis"; e não é porque estão contratando este serviço que eles vão decidir o laudo que a empresa vai emitir. Isso acontece porque se a certificadora emite um laudo incorreto, a falência é certa. O "produto" dessas empresas certificadoras é a sua reputação, por isso, o valor do suborno será sempre menor que o custo do dano à marca.

Um problema mais grave em relação ao lixo é a coleta realizada pelas prefeituras em todo o Brasil. Um problema que não é técnico e sim estrutural, ligado ao modelo socialista adotado.

Essa socialização do lixo existente origina diversos problemas, como o incentivo à produção de lixo, desincentivo à separação e reciclagem, mal cheiro nas vias públicas devido à acomodação do lixo até o horário da coleta e alto custo do serviço.

O incentivo à produção de lixo tem relação com o alto custo do serviço. Como independente da quantidade de lixo jogado o valor pago é o mesmo, por que então evitar produzir lixo? O alto custo já é decorrente da gestão dessa coleta, porque o Estado não tem nenhuma capacidade de administrar algo; além disso, por ser um monopólio, por que melhorar a qualidade do serviço e utilizar novas técnicas se isso não faz diferença para nenhum dos administradores?

Então, como podemos mudar isso? A solução é simples. Primeiramente todo o sistema de coleta de lixo coletivo estatal deve ser abolido. Isso quer dizer então que as pessoas não terão onde jogar o seu lixo e teremos mais doenças? Claro que não. Em pouquíssimo tempo, diversas empresas vão começar a oferecer o serviço de coleta de lixo em casa, o que vai reduzir os preços. Provavelmente as empresas, pensando em maximizar seus lucros, vão incentivar com campanhas - ou até mesmo financeiramente - a separação do lixo para o maior reaproveitamento possível.

Mesmo não tendo muito conhecimento dos fins que podem ser dados a todos os materiais, é de conhecimento geral a possibilidade de total reaproveitamento de plásticos, alumínio, cobre, vidros e até mesmo lixo orgânico, que pode ser usado para gerar energia; além de emitir uma quantidade muito menor de gases do que se o lixo simplesmente ficasse em decomposição em aterros sanitários. Outro ponto positivo é que, nesse cenário, os aterros sanitários receberão uma pequena quantidade de resíduos e serão tratados de maneira mais adequada, pois a imprensa ou até mesmo uma empresa certificadora ficarão atentos e avisarão aos consumidores quando não for dado tratamento adequado, o que resultará na quebra da credibilidade e queda na demanda pelos serviços das empresas que não cumprirem com aquilo que firmarem em contrato com seus clientes.

A solução restante é flexibilizar as regulamentações e, finalmente, removê-las completamente. Pois enquanto elas existirem, menos empresas de certificação privada serão criadas e mais danos o meio ambiente sofrerá.

Você quer um mundo ambientalmente sustentável? Desestatize o lixo!
Reblogado de:http://convergenciaanarquista.blogspot.com/