segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Resenha crítica dos filmes Tropa de Elite e Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro

            A primeira impressão que tive do filme Tropa de Elite de José Padilha quando assisti a uma cópia pirata emprestada por um amigo meu foi a de estar assistindo a uma película extremamente preconceituosa ao atribuir aos usuários de drogas a culpa pela expansão do tráfico de drogas e da violência urbana e extremamente maniqueísta ao mostrar os mocinhos (o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do RJ) combatendo os vilões (os traficantes de drogas que tocam o terror nas favelas).
No decorrer das quase duas horas de filme senti uma necessidade do roteiro de tentar legitimar as práticas de tortura dirigidas à “bandidagem” e a população em geral da favela. Como se o filme tentasse dar voz à classe média carioca que tem se visto refém da violência urbana que por sua vez é conseqüência direta do tráfico de drogas. Bom, essa foi a impressão que eu tive ao assistir ao filme (boa parte da crítica também partilhou da mesma opinião), mas segundo seu diretor, José Padilha, não foi exatamente essa a mensagem que o roteiro pretendia transmitir.
Narrado em primeira pessoa pelo protagonista capitão Roberto Nascimento o filme, de fato, funcionou mais como propaganda pró-violência policial do que como denúncia a tal violência, mesmo que não tenha sido essa a intenção de seus idealizadores e realizadores.
 Parte da imprensa classificou o filme como fascista e reacionário, por estar assustada com a reação entusiasmada de uma boa parcela da platéia que aprovava e até aplaudia as ações violentas praticadas pelos “mocinhos”.  A essas investidas “mordazes” por parte da imprensa o diretor respondia que apenas tentou suscitar o debate sobre a questão da violência a partir do ponto de vista de policiais e. Ingenuidade da parte dele achar que conseguiria isso com “aquele” filme e com “esse” público.
O filme a princípio derrapa ao mostrar uma suposta Tropa de policiais incorruptíveis e vai progressivamente dando suporte a um coro raivoso de segregação sócio-racial, legitimando assim o uso da violência na repressão ao crime. As favelas são resumidas ao tráfico (como se todo favelado fosse traficante, fosse bandido), assim se assume o discurso da repressão violenta às comunidades pobres como “a guerra” contra o tráfico.
Responsabilizar os consumidores de drogas pelo “financiamento” do crime também é uma idéia forçada pelo filme, onde são mostrados universitários de classe média consumindo drogas leves e participando de passeatas em prol da paz. Até onde sei as passeatas pela paz não atacam de fato os reais motivos da violência e nem a responsabilidade pelo tráfico de drogas pode ser inteiramente atribuído à “ala consumidora” por assim dizer.
Não é abordado em momento algum do filme questões como os graves problemas sociais do capitalismo (fome, desemprego) e os governos e suas políticas, que são os verdadeiros responsáveis pela violência urbana nunca são postos no banco dos réus.
Questões como à necessidade de legalização das drogas, para atrofiar o narcotráfico, acabando com seus lucros e as diversas outras “instituições” criminosas derivadas do tráfico de entorpecentes também não são abordadas. Segundo o filme os consumidores e só os consumidores são apontados como responsáveis pela violência enquanto o governo e a burguesia passam impunemente pelos “filtros da ficção”. 
Em suma, o Tropa de Elite original foi rodado em ritmo de cinema hollywoodiano de ação que só serviu para corroborar antigos preconceitos, pois mostra bandidos como bandidos (o fator “crueldade humana” não deve ser em momento algum ignorado, mas ignorar que os bandidos antes de se bandearem para o lado “escuro” da lei passaram pelo processo de marginalização social também é sacanagem) e bandidos fardados como heróis, pois a medida que mata, tortura e trata com truculência criminosos, moradores da favela e usuários de drogas, o protagonista, capitão Nascimento é alçado ao status de herói nacional, por sentar o ferro na bandidagem geral, sem dó. E ainda tem a onipresente narração em off de Nascimento contribuiu para a “humanização” do personagem.
Como se o estado (ou nesse caso a sua “mão” opressora que é a polícia) tenha o direito de dispensar ao indivíduo o mesmo tratamento dispensado por esse a outrem e pelo qual poderá responder perante a lei (qualquer similaridade com o código de Hamurabi pode não ser mera coincidência). Como se o papel do estado fosse apenas o de vigiar e punir e não também o de amparar e suprir as necessidades de cada um.  
   É de se estranhar, e muito que o José Padilha que dirigiu Tropa de Elite seja o mesmo que dirigiu Ônibus 174, no qual tenta reconstituir o violento episódio em que Sandro Barbosa do Nascimento (aliás, um dos sobreviventes da célebre Chacina da Candelária) realiza o mal-sucedido seqüestro de um ônibus que culmina em tragédia ou do documentário Garapa, resultado de 45 horas de filmagens que acompanham o cotidiano de três famílias no estado do Ceará em estado de extrema insegurança alimentar.
De fato Tropa de Elite foi o maior escorregão na carreira do cineasta justamente por supostamente (digo, supostamente por quê ao argumentar que Nascimento é um espelho perverso do cidadão carioca cheio de medo e revoltado com a insegurança, um anti-herói e não um exemplo a ser seguido, Padilha quase soa convincente, quase) encontrar-se envolto em uma atmosfera de interesses políticos e oportunismo artístico-comercial, afinal, por que não angariar incentivos fiscais idealizando um filme que pode servir para a população civil ignorante engolir as novas políticas de segurança pública que seriam adotadas pelos governos federal e estaduais, sem chiar? Não estou, no entanto acusando o cineasta de oportunista e sim fazendo a todos uma ode à reflexão.
O PAC (ou Programa de Aceleração do Crescimento) da Segurança a partir daí (meados de 2007) é baseado no aumento da repressão policial e em outras medidas fascistas tais quais: criminalização da pobreza e dos movimentos sociais. Foi declarada a “guerra” às populações carentes e o filme de Padilha veio bem a calhar como “propaganda governamental de guerra”, mesmo que involuntariamente.
Sob o nobre pretexto de combater o narcotráfico, mortes, prisões arbitrárias, torturas e abordagens vexatórias se tornaram rotina no cotidiano de milhões de trabalhadores e de jovens negros. A partir daí a polícia passa a usar com mais freqüência e intensidade equipamento militar (destaque para o “Caveirão”, o simpático blindado que se tornou símbolo do BOPE).
Isso é o que pode ser convenientemente chamado de “doutrina da guerra preventiva” procedimento que o governo Lula (o então presidente e agora padrinho político da atual Dilma Roussef) aprendeu com o de G. W. Bush, afinal quem mata primeiro sempre tem a chance de perguntar depois, certo?
 Daí o resto virou piada de humor negro. Em festas à fantasia pessoas iam orgulhosamente trajadas como policiais do BOPE e eram freqüentes as brincadeiras em que camaradas se estapeavam mutuamente repetindo à todos pulmões a frase que fora celebrizada por Nascimento: pede pra sair! Até as crianças volta e meia eram vistas repetindo o mesmo comportamento (na época minha mãe tinha uma escola destinada à pré-alfabetização e eu cansei de ver isso acontecer) e em todos os cantos o gado bradava em alta voz: “caveira, caveira!”. Carta branca para os Criminosos Fardados. Até o comando tático local passou a agir mais violentamente, pois tinha o aval da população civil preocupada com a criminalidade (pelo menos a que era perpetrada pela ralé violenta e subnutrida).  
Não tenho absoluta certeza, mas penso que Padilha não tinha noção de que havia, ao tentar fomentar discussões pertinentes a temas como violência, tráfico, corrupção policial e consumo (ou financiamento) de drogas, acabaria criando um monstro. Ao invés de fragilizar, sensibilizar e convidar à reflexão, uma sociedade já mortificada e saturada da violência urbana acabou levando a mesma a aprovar e até a incentivar a barbárie.
     A nova face do Caveira

(se alguém ao final dessa postagem, se é que isso seja possível, não entender o sentido desse trocadilho peço encarecidamente que vá se f***r!)
Três anos depois da realização do primeiro longa é anunciado em ano de copa e de eleição e depois de ser adiado algumas vezes estréia em uma 6ª feira, 08, em mais de 650 salas de cinema Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro.
            A história se passa quinze anos depois de onde termina seu predecessor com o antes capitão e agora coronel Nascimento, comandando da sede do Batalhão via rádio a invasão ao presídio de segurança máxima Bangu I, onde depois que armas são introduzidas na ala de uma das três facções rivais lá “residentes”, por agentes carcerários corruptos tem início um massacre na outra ala, promovido pela facção chefiada por Beirada (seu Jorge, que através de sua pequena participação mais uma vez nos põe diante da seguinte dúvida: afinal de contas, no que é mesmo que ele é melhor, atuar ou cantar?). O BOPE entra no meio, com o capitão André Mathias (interpretado de maneira opaca pelo ocasional ator André Ramiro, que começa o primeiro filme ainda como “aspira”) capitaneando o pelotão.
            É então quem entra em cena o professor de história e ativista dos direitos humanos Diogo Fraga (qualquer semelhança com o deputado Marcelo Freixo, o parlamentar do PSOL que conseguiu a instauração, na ALERJ, da “CPI das milícias” pode não ser mera coincidência) que segundo Nascimento em sua narração em off é o tipo de pessoa que vagabundo chama quando faz “merda”. Temendo um episódio análogo ao Carandiru e uma repercussão negativa na imprensa, o governador resolve atender a exigência do traficante e manda o ativista de direitos humanos, a fim de tentar dialogar com os presos.
            A princípio Fraga consegue através de seus recursos retóricos e da confiança que o traficante Beirada aparentemente deposita nele acalmar os ânimos e os reféns feitos até então (os próprios agentes da polícia penal) acabam sendo libertados, mas André que não conseguiria sair dali satisfeito sem ter mandado pelo menos um vagabundo pra vala se precipita e junto com seu pelotão senta a bala nos presos insurgentes. Beirada faz Fraga de refém e o capitão Mathias, obedecendo rigorosamente o manual do BOPE (matar o vagabundo para proteger o refém), mas desobedecendo a uma ordem direta do coronel Nascimento arregaça o crânio de Beirada na bala o que acaba rendendo muita dor de cabeça para ele, para o governador e conseqüentemente para todo o BOPE.
            O resultado de tudo isso é que Fraga usando uma camiseta onde pode-se ler (HUMAN RIGHT AID) manchada de sangue vira manchete no mundo inteiro.
Revoltado com a atitude perversa e covarde do BOPE esculacha o governador, o coronel Nascimento, o capitão Mathias e o BOPE.
            Responsabilizado pelo incidente Nascimento perde o comando, mas graças aos auspiciosos elogios do inescrupuloso apresentador de TV (qualquer similaridade com o deputado e apresentador de telejornais de viés sensacionalista, Wagner Montes pode não ser mera coincidência) Fortunato e da própria população de classe média que já está saturada de toda a violência que eles acreditam inocentemente (ou perversamente, pra quem não consegue ficar alheio à guerra de classes que é um fato) ser promovida unicamente pelos criminosos violentos vindos das classes subalternas ele longe de sair prejudicado acaba sendo promovido a subsecretário de Segurança Pública do estado do Rio de Janeiro, o que ele chama de “cair pra cima”.
            Quem acaba sendo crucificado na história (pra agradar a esquerda) é André Mathias que é expulso do BOPE e não contente com sua condição humilhante resolve chamar a imprensa para reclamar do governador por ter sido responsabilizado pelas mortes em Bangu I, pois segundo ele um governo que só pensa em politicagem e em suprir seus fisiologismos não tem o direito de agir tão arbitrariamente. Isso deixa o governador furioso e Mathias além de continuar no batalhão dos corruptos pega trinta dias de cadeia pela “travessura”.
            Em uma conversa francamente hostil entre pupilo e mestre, Mathias alega, “com todo o respeito” que independente dos esforços de Nascimento a única coisa que será mudada na Secretaria de Segurança Pública será ele mesmo. Nascimento é considerado um fascista pela ex-esposa (que inclusive está casada com o tal Fraga), causa medo ao filho e é considerado um traidor por Mathias, ao invés de se abater ele exorciza seus demônios metendo a cara no trabalho.        
            Agora Nascimento combate o crime em uma esfera bem maior, abrangendo vasta extensão, recursos materiais e técnicos, e acesso a uma rede de corrupção que nem seus 21 anos de policial o fariam supor.
            A maior parte do filme se passa em um ambiente de gabinetes enquanto Nascimento usando seu prestígio aumenta e equipa o BOPE, transformando o batalhão em uma “máquina de guerra”. O BOPE a partir daí passa a contar com trezentos e noventa policiais e dezesseis equipes táticas e as operações que outrora eram efetuadas com apenas oito viaturas agora contavam com carros blindados e helicópteros.
            A repressão acaba com o domínio do tráfico nos morros, mas abre espaço para outro tipo de crime bem mais organizado. E é aí que aparecem as milícias que, na ausência dos grandes traficantes, acabam dominando as comunidades, através de métodos típicos de mafiosos, e protegidos por alguns políticos com o próprio governador à frente.
            É então que Nascimento percebe que no “vácuo de poder” deixado pela derrota dos narcotraficantes que nascem essas milícias, esses poderes paralelos, pois o sistema, como ele conclui amargamente, é conivente e tira proveito até da ação predatória dessas milícias.
            O BOPE é uma tropa de elite treinada para matar. Ao fazer o seu trabalho, ele perfaz um duplo papel, o de herói e o de vilão. Ao sair de cena, esta é ocupada por bandidos duplamente piores que os meliantes, porque se escondem atrás da insígnia da lei para achacar bandidos e a população civil. Nascimento a partir de então começa a combater o sistema do qual, querendo ou não, faz parte, tentando destruí-lo por dentro. Tarefa inglória, quase inexeqüível, não fosse a bem vinda ajuda de seu antigo rival o agora deputado estadual, Diogo Fraga.  No fim, a guerra de Nascimento contra o crime desloca-se da polícia para a política numa troca de proporções, onde reside uma diferença crucial para todos os envolvidos.
            Aqui a farsa do “incorruptível” BOPE ainda é forçosamente mantida enquanto do lado de cá do espelho esse é tão corrupto quanto a PM. No próprio livro que deu origem ao filme (Elite da Tropa, escrito a três mãos pelo antropólogo e ex-secretário de Segurança Pública do Rio, Luiz Eduardo Soares, André Batista e o ex-capitão do BOPE, Rodrigo Pimentel em quem foi inspirado o personagem interpretado por Wagner Moura) se fala de um comandante do BOPE que tenta ficar com parte do dinheiro recuperado de um assalto a banco.

            A principal diferença desse novo Tropa em relação ao original é a ampliação do tema da segurança pública e da corrupção. Ao invés de radiografar a violência unilateralmente do pondo de vista do meganha-assassino-herói nascimento que acha que ao matar está fazendo um grandessíssimo favor a sociedade, expõe de modo mais acurado de onde nasce essa violência (fecha na esplanada dos ministérios Queixada, close ali Imperador!) através da percepção amadurecida do mesmo Nascimento que agora que descobriu que a Secretaria de Segurança é o berço da insegurança e que em um estado que além de não gerar lucro algum e só cobrar impostos exorbitantes, ainda se dá ao luxo de lucrar com a miséria e a ignorância das comunidades carentes as transformando em verdadeiros “currais eleitorais”.  
            "Acredito num cinema que interfere na realidade e provoca uma reação no público" comentou certa vez Padilha ao ser questionado por quê do auto teor político de seu último longa ficcional. E eu acredito que esse filme (com o respaldo das afirmações confiantes de seu realizador e quem distribuiu sozinho o filme) tem o poder de provocar tais mudanças. Destaque para a irônica “nota de esclarecimento” que diz: APESAR DE POSSÍVEIS COINCIDÊNCIAS COM A REALIDADE, ESSE FILME É UMA OBRA DE FICÇÃO.
Coronhada na cartilagem nasal do “sistema” mesmo. Parabéns coronel Nascimento. Parabéns José Padilha.

Duas curiosidades:
           
            1) em uma cena em que Diogo Fraga dá uma palestra explicando que numa projeção a população carcerária brasileira chegaria a 510 milhões, em 2081, enquanto a população geral chegaria a 570 milhos, ou seja: 90% da população estaria presa, faz ponta na platéia o deputado Marcelo Freixo, ouvindo o personagem inspirado nele próprio, numa espécie de metalinguagem.
            2) outro que dá as caras é do próprio Rodrigo Pimentel (ex-oficial do Batalhão de Operações Policiais Especiais – BOPE, um dos criadores da história e quem inspirou o personagem do capitão Nascimento), que aparece como um dos clientes do restaurante que aplaude o Nascimento quando ele entra.
P.S. Recomendo a todos que assistam ao documentário Ônibus 174, que reconstitui a trajetória tenebrosa de Sandro Barbosa Nascimento até o dia em que ele seqüestrou o ônibus e acabou morrendo asfixiado pela polícia.

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